CULTURA
Os Corruptos e os Arbustos
Juro que tenho procurado dar uma trégua aos corruptos. A dificuldade em manter a palavra, é que corruptos trabalham muito, e não há como fugir deles, sob pena de cometer crime de omissão. Meu corrupto favorito é o ladrão de dinheiro público.
Falar sobre corrupção em Brasília é o mesmo que falar em tomar banho, escovar os dentes, ou ir trabalhar. É algo corriqueiro. A palavra mais adequada à situação é aquela, assustadora, empregada pelos médicos a pacientes com câncer: metástase. E corruptos são perversos como o câncer. Vejam esta: quarta-feira a Controladoria da União descobriu o desvio de um milhão de reais - uma ninharia, numa cidade que se rouba centenas de milhões – do dinheiro do Programa Bolsa Família. O dinheiro que serviria para alimentar centenas de famílias foi utilizado para “construir uma cerca” na Secretaria de Ação Social do Distrito Federal. Vejam bem, Secretaria de Ação Social.
A revolta da natureza, que tem provocado chuvas fortes em vários locais do país, principalmente no Rio de Janeiro, matando centenas de pessoas, inclusive ricos, mostra com clareza o quanto o corrupto é um assassino. A tragédia do Rio de Janeiro é fruto da facilitação de agentes públicos, fiscais, secretários, vereadores, deputados, que permitem obras em locais proibidos. É fruto da politicagem, cujo interesse é dinheiro e votos. Os políticos apostam na sorte ou no azar da transação, sabem dos riscos, mas rezam para que nada aconteça. Aí vem a natureza e com sua força e verdade cegas derruba as máscaras e desnuda a dolorosa verdade.
A maior vítima são os pobres. O Brasil é um país com milhares de favelas entupidas de miseráveis. No entanto, são eleitores. O voto deles é igual ao do Eike Batista. “É um cidadão”, de quinta categoria, mas os políticos os chamam assim e só aparecem a eles para comprar os votos ou para enganá-los com promessas e mentiras.
Shakespeare afirma que “a suspeita sempre surge na consciência culpada; o ladrão teme encontrar um oficial de justiça atrás de cada arbusto”. Que bom! Pois, parece que à destituição e prisão do Governador de Brasília não intimidou seriamente os corruptos. Notícias de malas de dinheiro circulando pela cidade são comentadas nos bares e salões da Capital. Brasília é uma cidade bastante verde, arborizada, cheia de árvores e arbustos. Acredito, que não exatamente um oficial de justiça, mas um policial civil ou federal, o corrupto assustado enxerga atrás dos arbustos.
Esta semana, a polícia em duas operações prendeu cinco corruptos em Brasília e trinta e um – já velhos conhecidos – no Mato Grosso, Minas gerais, Rio de Janeiro e Rondônia. Hoje pela manhã o Tribunal de Contas da União apontou uma serie de fraudes no Tribunal de Justiça de Brasília. Na verdade o país todo está atolado na corrupção. Fruto do conluio entre políticos e seus testa de ferro e o silêncio da justiça.
O escritor e satirista tcheco do século XIX, Karl Kraus, que arrasava seus inimigos – e todo homem honrado considera o corrupto um inimigo – foi instado pelos amigos a usar a fé cristã para perdoar esses seres pervertidos. Karl Kraus, já perto de morrer, concordou: “está bem, estão perdoados. No entanto, amanhã quero vê-los enforcados na frente da minha casa”. Duro, Karl Kraus! Quanto a mim quero ver os corruptos apenas condenados pela justiça, nem que seja apenas por um dia.
(Theófilo Silva)


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