CULTURA
THEÓFILO SILVASinto ter de usar uma tão linda frase de Shakespeare para tocar num assunto que aparentemente não tem nada a ver com o tema que vou tratar aqui. Mas, como as instituições brasileiras que têm algum membro envolvido em escândalos, em sua defesa, continuam a usar a expressão “vamos cortar na própria carne” e quase nunca o fazem, a palavra carne, contida nas duas citações, vai servir ao meu raciocínio.
Refiro-me a praga do Corporativismo, uma doença brasileira que tem contribuído para corroer o tecido do Estado e, servido de biombo para esconder pessoas que cometem graves infrações de natureza moral e ética. Um mal arraigado que atinge com maior força as instituições do próprio Estado ou de defesa da sociedade. Os poderes legislativo e judiciário, o ministério público e a polícia federal pertencem a essa categoria. Qualquer denúncia, por mais forte que seja, contra um membro dessas instituições é imediatamente rechaçada ou abafada em procedimentos internos que nunca dão em nada.
No que concerne ao poder legislativo, não há muito que fazer, já que boa parte da classe política está desmoralizada. No poder judiciário, temos o caso de um juiz do STJ que está afastado do tribunal há quase três anos, mas continua usufruindo das benesses do cargo. O ministério público de São Paulo se nega a expulsar de seus quadros um promotor assassino confesso, e o de Brasília, nada fez quanto as graves denúncias contra o seu procurador-geral durante a operação Caixa de Pandora. A polícia federal e o ministério da justiça recusaram com veemência as pesadíssimas denúncias feitas pelo Estadão (a denúncia é da própria PF) esta semana contra um famoso delegado paulista que ocupa um alto cargo no executivo.
Na verdade, as corregedorias dessas instituições são quase ornamentais. Encontrar uma denúncia contra um de seus membros, por mais forte que seja, que tenha acabado em punição, é perda de tempo. Essas instituições têm um espírito de corpo terrível, funcionam como uma família. “A ovelha desgarrada deve ser protegida”. É assim que eles agem, contrariando a máxima de que todos são iguais perante a lei. Somos seres humanos, passíveis de uma série de influências: caráter, personalidade, genética. Somos falíveis. No entanto, esses grupos só reconhecem isso nos outros cidadãos, pois se acham diferentes.
Nas nações evoluídas, o corporativismo é forte, mas ocorre de forma contrária. O membro que ofendeu o corpo é expulso para preservar o todo. É como um tumor que apareceu e precisa ser extirpado. Aqui se anda com o corpo ferido, desde que seja para proteger-se a si mesmo. “Afinal, eu poderei fazer o mesmo amanhã”!
Sabemos que a carne não se desmancha em gotas de orvalho, como deseja Hamlet, no entanto a sociedade ferida se dissolve em lágrimas, causadas pela dor de uma injustiça que deveria ter sido reparada por iguais que se acham mais iguais do que os outros.
Theófilo Silva é autor do livro "A Paixão Segundo Shakespeare"


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