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terça-feira, 6 de julho de 2010

Sobre a Tirania

CULTURA
 THEÓFILO SILVA
Divulgação da Internet

Recebi de um amigo um ensaio que eu tinha lido há bastante tempo e do qual não lembrava mais: um panfleto escrito em torno de 1550 por um jovem estudante de direito, Etienne de La Boétie. O panfleto assusta por sua sabedoria, e La Boétie, morto aos 32 anos, foi imortalizado por essa pequena obra-prima.
O texto é tão brilhante e sucinto que é difícil cortá-lo, tantas são as belas passagens nele contidas. Estou falando da obra Discurso da Servidão Voluntária, um libelo em favor da liberdade, e um ataque frontal as várias formas de tirania. La Boétie viveu o período das guerras religiosas na França, e suas palavras são absolutamente atuais.
Compartilho este longo e arguto parágrafo em que La Boétie descreve com profunda acuidade o comportamento de um tirano: “Não é só preciso que façam o que ordena, mas também que antecipem seus próprios desejos. Não basta obedecê-lo, é preciso agradá-lo, é preciso que se arrebentem, se atormentem, se matem dedicando-se aos negócios dele: e já que só se aprazem com o prazer dele, que sacrifiquem seu gosto pelo dele, forcem seu temperamento e o dispam de seu natural. É preciso que estejam incessantemente atentos às palavras dele, à voz dele, aos olhares dele, aos mínimos gestos dele: que seus olhos, seus pés, suas mãos estejam incessantemente ocupados seguindo ou imitando todos os seus movimentos, espiando e adivinhando suas vontades e descobrindo seus mais secretos pensamentos. Isso é viver feliz? Isso é, mesmo, viver? Há algo no mundo mais insuportável que essa condição”?
La Boétie pergunta por que pessoas se submetem a humilhações e ultrajes da parte de um ou outro ditadorzinho, pois “Certamente o tirano nunca ama nem é amado”. Ele aponta três causas para a servidão voluntária: o hábito, a covardia e a participação na tirania. Para ele são os seduzidos pelo esplendor do tesouro público sob a guarda do tirano, que em conluio, garantem e asseguram seu poder: “são sempre quatro ou cinco homens que o apoiam e que para ele sujeitam o país inteiro e que obtiveram o ouvido do tirano e por si mesmos dele se aproximaram ou então, foram chamados para serem cúmplices de suas crueldades, companheiros de seus prazeres, complacentes com suas volúpias sujas e sócios de suas rapinas”.
O mundo moderno não acabou com os déspotas, eles podem ser: empresários, políticos, religiosos e outros. O tirano pode ser o aparente pacato pai de família, o chefe de escritório, o presidente do Irã ou o repulsivo ditador da Coréia do Norte.
Shakespeare, que compartilhava da visão de La Boétie, criou tiranos cruéis, como Macbeth e Ricardo III, mas não sabemos se ele leu a obra de La Boétie, é bem possível que sim, já que leu Os Ensaios de Montaigne, obra do mesmo período que o Discurso.
Nem sempre sabemos onde se encontra a tirania, a maneira despótica de governar pessoas, pois ela se esconde sobre disfarces, os mais diversos, pois, para o tirano não importa ser bom, mas parecer bom. O atualíssimo La Boétie nos diz que “os tiranos fazem todo o possível para tornar seus servidores cada vez mais fracos e covardes”. Os acordos e a palavra empenhada, nada valem, se elas se voltam contra eles.
Os tiranos estão por aí, esperamos que aqueles que são vítimas deles e que não são covardes nem corruptos lembrem-se do Discurso de La Boétie e rompam com a servidão voluntária.

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